Soliedariedade

Amor que ultrapassa fronteiras

Pelotense foi ao Quênia, um dos países mais pobres do mundo, para trabalhar voluntariamente

05 de Março de 2018 - 07h32 Corrigir A + A -
A jovem deu aula para crianças de dois a 14 anos (Foto: Paulo Rossi - DP)

A jovem deu aula para crianças de dois a 14 anos (Foto: Paulo Rossi - DP)

Sair do país, conhecer uma realidade totalmente diferente e ajudar crianças que pouco ou nada têm. Os três desejos impulsionaram a estudante de Medicina Julia Neugebauer a passar os dois primeiros meses do ano no Quênia. Ela trabalhou como voluntária no país africano, dando aula para crianças de dois a 14 anos em uma escola da periferia. Com a ajuda financeira de amigos pelotenses, conseguiu transformar um pouco a dura realidade enfrentada pelos pequenos.

A escola não tinha água, muito menos pia. Os quadros-negros eram extremamente precários. Material escolar era artigo de luxo. Na hora do descanso, os alunos de dois anos dormiam sobre as classes ou nas cadeiras, porque não havia colchonetes. Após três semanas observando as dificuldades, a inquietude falou mais alto. Julia resolveu ir além das atividades de educadora e pediu a contribuição dos amigos em uma rede social.

O valor arrecadado, cerca de R$ 5 mil, parece pouco para resolver tantos problemas. Mas foi suficiente para levar comida, água encanada, três mil itens de papelaria, artigos esportivos, consertar equipamentos estragados e construir novos quadros. Os menores também ganharam colchões para a hora da soneca. “Se eles não levassem bebida de casa, passavam o dia inteiro com sede. A partir da quarta série a comida também era responsabilidade do aluno”, conta Julia.

O problema é que nem sempre dava para levar alimento ou água de casa. A vida familiar das cerca de 350 crianças que estudam na Love School é conturbada. “Algumas são órfãs, outras têm pais presos ou internados em hospitais”, explica a futura médica. A maior parte dos responsáveis pelos menores não tem um emprego formal. Não há também educação pública no Quênia. Segundo Julia, a taxa dessa escola é de aproximadamente R$ 300,00 por ano. Mesmo parecendo pouco, muitos pais não têm como pagar. Assim, a conta não fecha e fica difícil proporcionar estrutura básica aos alunos.

A voluntária era responsável por lecionar Inglês, Matemática, Ciências e Educação Física aos estudantes de sete a 14 anos. O esporte era o foco principal. Eles não tinham professor específico para as atividades físicas nem conheciam muitas coisas sobre o assunto. “São talentos que estão se perdendo”, lamenta. O que mais falta, no entanto, é afeto. “Eles não têm carinho. Qualquer atenção mínima já deixa as crianças muito felizes”, lembra.

O último dia de Julia na escola foi preenchido justamente pelos itens que mais faltam aos pequenos quenianos. Ela organizou uma festa para comemorar os 15 anos da escola, com direito a cama elástica, brinquedos infláveis, doces, comida e suco. “Muitos alunos nunca tinham comido um cachorro-quente ou visto tantos brinquedos. Com certeza foi o melhor dia da vida deles”, comenta. Na escola, as crianças não sabem nem a data do próprio aniversário e nunca tiveram uma festa comemorativa.

Diferenças e semelhanças
Conhecer a África já estava nos planos de Julia. A surpresa ficou por conta do país escolhido. A jovem viajou através da Aiesec, uma companhia responsável por organizar este tipo de intercâmbio. A alternativa de ir ao Quênia foi abraçada, principalmente, pelas semelhanças culturais entre o país e o Brasil. “Eles são muito parecidos conosco, principalmente na religião”, destaca.

Contrastes também foram percebidos. Julia conta que era uma das únicas brancas nas favelas da capital Nairóbi. “As pessoas me olhavam diferente”, lembra. A pobreza extrema, o lixo excessivo presente nas ruas e as casas precárias são outros pontos que marcaram a estudante. “Não tinha banheiro, cozinha ou cama nas residências e elas eram muito pequenas”, conta. Agora, a jovem pretende continuar colaborando com a escola e quer voltar ao país. Por aqui, pretende seguir realizando esse tipo de trabalho. “Para ser voluntário, basta querer. E vale muito a pena”, finaliza.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados