Protesto

Nova versão para o caso Pierre é apresentada

Em reunião ocorrida nesta terça-feira na Câmara de Vereadores, amigos da família da vítima falam em suicídio ocorrido depois de o jovem haver tomado a arma de um guarda municipal

20 de Fevereiro de 2018 - 21h21 Corrigir A + A -
“E se fosse seu filho?” dizia o cartaz de um amigo da família (Foto: Gabriel Huth - DP)

“E se fosse seu filho?” dizia o cartaz de um amigo da família (Foto: Gabriel Huth - DP)

O jovem Pierre Bonow, 24 anos, com depressão profunda e há dois dias sem comer, entra em estado de surto psicológico. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) é acionado. Este relato inicial é o único ponto de consenso entre as duas histórias que falam sobre o caso. Há, ainda, uma única certeza factual: a morte do rapaz, após dias internado na UTI da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, em decorrência de um tiro na cabeça durante o atendimento. Uma reunião na Câmara de Vereadores foi convocada para tratar do ocorrido.

Há duas versões sobre o caso. Na primeira delas, noticiada pelo Diário Popular com base em um boletim de ocorrências (BO), o jovem estaria em surto e armado com uma faca. A Samu teria acionado a Guarda Municipal para auxiliar na contenção do rapaz.

Após ataques de faca em um dos guardas, teria sido utilizada a arma de choque, que acabaria derrubada com uma batida de braço de Pierre. “Pierre agarrou Adriano (guarda) e tentou tirar a arma do coldre de perna do guarda, foi então que Gilson, sem mais opções para conter Pierre, efetuou o disparo de arma de fogo, que acabou acertando Pierre na cabeça”, narra o BO.

Esta versão tem sido confirmada pela Guarda Municipal, Secretaria de Segurança Pública, Secretaria Municipal de Saúde e Samu. A atitude do guarda, inclusive, foi defendida recentemente pelo novo comandante da GM, Sandro Carvalho, e pelo titular da pasta de segurança, Tenente Bruno (PTB).

Outra narrativa foi apresentada na reunião na Câmara de Vereadores pela amiga da família de Pierre, Luhana Oliveira. Ao invés de homicídio, a versão trata de um suicídio com a arma de um dos guardas. Conforme Luhana, a equipe do Samu teria esperado do lado de fora enquanto os guardas municipais conferiam a situação. Pierre teria recebido os guardas e aceito ser levado até a ambulância sem demonstrar resistência. A caminho da porta onde aguardava a ambulância, caminhavam no corredor da casa o primo de Pierre, um guarda, Pierre e o outro guarda, como se andassem em fileira até a entrada da residência. Pierre não estava algemado ou imobilizado. Neste momento o rapaz teria pego a arma de um dos guardas, entrado em um quarto da casa e disparado contra própria cabeça. De acordo com este relato, não teria havido luta corporal ou esfaqueamento.

Mais: o boletim de ocorrência teria sido forjado pelos guardas. A reportagem tentou contato com as testemunhas, mas não foi atendida. O primo de Pierre, que presenciou o fato e teria dado este relato no inquérito, se disse ainda muito abalado para falar e comentou que falaria apenas com a Justiça.

Inquérito investiga o caso
A delegada Walquíria Meder é a responsável pelo inquérito na Polícia Civil. Ela admite que há duas versões e que elas são conflitantes. “Todas as possibilidades estão sendo apuradas. A gente não vai dar mais informações até a conclusão do inquérito”, comentou. A polícia aguarda a conclusão da perícia. O exame está sendo realizado nas armas que foram entregues: uma pistola Taurus calibre .380, 18 munições intactas, arma elétrica e uma faca de churrasco com cabo de madeira.
“O inquérito deve estar pronto na semana que vem”, informou a delegada.

O que dizem as autoridades
A secretária municipal de Saúde, Ana Costa, apresentou números e dados sobre o atendimento a pessoas com transtorno realizados pela Samu em conjunto com a polícia em 2017. Foram 2.455 casos ou quase sete casos por dia. “Esta pauta é rotina no nosso gabinete”, garantiu. Na rede municipal, há 13 psiquiatras.

O secretário Tenente Bruno admitiu que a sistemática destas operações deve ser melhorada. “Precisamos de zero erro. Mas uma instituição não resiste há 28 anos acobertando erros”, defendeu o secretário, referindo-se ao tempo de existência da Guarda. Sobre a nova versão apresentada, Bruno disse que só poderia se manifestar com base no boletim de ocorrência, que narra o fato como homicídio. Segundo o secretário, as operações têm um padrão de uso progressivo da força, começando através de conversas, depois por imobilização, em terceiro com a arma de choque e somente em último caso e sem mais alternativas a arma de fogo é utilizada.

Contra a arma de fogo nestes casos
Na reunião houve relatos emocionados. Um deles pelo presidente da Comissão Municipal de Saúde, Luiz Guilherme Belletti, que chorou lembrando um caso familiar. “Arma de fogo é pra conter bandido, não é pra paciente do CAPS”, criticou. Ele pediu que não sejam mais utilizadas armas de fogo para operações deste tipo. A comissão, presidida pelo vereador Marcos Ferreira - Marcola (PT), garantiu que pretende criar uma lei com esta regra para atendimentos a pacientes em surtos psicológicos.


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