Dados

Na crise, mulheres são as que mais perdem o emprego

Elas somam 97% do saldo negativo de 614 entre admissões e demissões na cidade

12 de Fevereiro de 2018 - 08h34 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Do saldo negativo de 614 pessoas entre admissões e demissões, 599 das que perderam seu emprego formal eram do sexo feminino (Foto: Paulo Rossi - DP)

Do saldo negativo de 614 pessoas entre admissões e demissões, 599 das que perderam seu emprego formal eram do sexo feminino (Foto: Paulo Rossi - DP)

Na hora em que as contas apertaram e as empresas optaram por dispensar funcionários em 2017, as mulheres foram o alvo principal. E não é pouca a diferença em relação aos homens. Dados levantados pelo Observatório Social do Trabalho da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) mostram que, do saldo negativo de 614 pessoas entre admissões e demissões, 599 das que perderam seu emprego formal eram do sexo feminino. Ou seja, 97%.

O número obtido junto ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged/MTE) surpreende até mesmo quem está acostumado a lidar com a variação dos índices de emprego, dificuldades do mercado e humor dos patrões. Para se ter uma ideia, no ano anterior (2016) 66,6% do saldo negativo entre contratações e desligamentos foram homens e 33,4% mulheres. Percentuais não muito distantes do total no mercado de trabalho, que tem 56,6% e 43,4%, respectivamente.

Sociólogo e sub-coordenador do Observatório, Hilbert David Sousa chama a atenção exatamente para este fato que de a maioria dos trabalhadores pelotenses é do sexo masculino e, mesmo assim, elas levaram a pior em 2017, destoando da proporção presente no mercado. "Se formos olhar para um perfil ocupacional, se percebe que trabalhadoras com menor escolaridade são as mais afetadas", destaca.

Ex-funcionária de uma indústria alimentícia, Ritiele Lopes, 30, está nesta estatística. Pouco depois de voltar da licença-maternidade no final do ano passado, foi surpreendida com a demissão. Ela estava há um ano na empresa e o salário de R$ 1,2 mil fará falta para auxiliar o marido Gabriel, 40, frentista, no sustento da pequena Sofia, de seis meses, e outras duas filhas de 15 e 11 anos.

"Estou procurando em qualquer área, não dá para escolher muito. Mas não está fácil, quando a gente larga o currículo já vão avisando que não estão contratando no momento", comenta. Com Ensino Médio completo, Ritiele diz que quando sobra tempo procura fazer cursos que possam ajudar na recolocação.


Perda de 7,9% em três anos

Não foi só o ano de 2017 que apresentou resultados negativos no estoque de empregos em Pelotas. Pelo contrário: unindo os índices desde 2015, a cidade teve uma queda de 7,9% no trabalho formal. Significa dizer que oito em cada cem pelotenses perderam o emprego nos últimos três anos.

E é a indústria o setor que mais preocupa. Com exceção dos trabalhos temporários nas conserveiras durante as safras, as empresas não estão conseguindo reabrir vagas. "Antes havia muita rotatividade. Muita gente saía, mas muita gente entrava também. Ficava quase no zero a zero. Agora o que se vê é várias indústrias em crise, correndo o risco de fechar", avalia o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias e Cooperativas da Alimentação (Sticap), Lair de Mattos.

Para Amadeu Fernandes, do Centro das Indústrias de Pelotas (Cipel), o grande número de mulheres demitidas no ano passado não se relaciona com as dificuldades do setor. O representante da categoria afirma que existem cada vez menos postos dentro das empresas voltados exclusivamente a um dos gêneros e que 2018 poderá ser um ano de retomada de oportunidades. Para homens e mulheres. "Novembro e dezembro já foram de recuperação do emprego. Acreditamos que 2018 poderá encerrar um ciclo negativo na economia de Pelotas."


Desemprego maior em Rio Grande

Diretamente afetada pelo desmonte do Polo Naval, Rio Grande teve um índice negativo do trabalho formal muito superior ao de Pelotas. A cada cem empregados formais rio-grandinos, 21 foram demitidos nos últimos três anos.

Conforme o sub-coordenador do Observatório Social do Trabalho, o fim das montagens de plataformas afetou não apenas indústria metalúrgica, que contratava muita gente, mas também toda a cadeia de serviços envolvidos. Hilbert David acredita que as dificuldades em Rio Grande devem se manter em 2018.
"Rio Grande vive uma realidade a parte por essa ruptura no Polo Naval. Já Pelotas, segue uma tendência nacional e estadual, com o comércio e serviços segurando uma certa estabilidade. Funcionam como um colchão da economia", avalia o sociólogo.


O perfil de quem ficou sem emprego em Pelotas

GÊNERO
Mulheres - 97%
Homens - 3%

GRAU DE INSTRUÇÃO
Fundamental Incompleto - 77%
Fundamental Completo - 15%
Médio Incompleto - 8%

FAIXA ETÁRIA
25-29 anos - 2,1%
30-39 anos - 19%
40-49 anos - 23,2%
50-64 anos - 48,2%
65 ou mais - 7,5%

*Fonte: Observatório Social do Trabalho UFPel - Caged


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