Sem uso

Secas há mais de 30 anos

Caixas d'água públicas construídas na década de 1980 até hoje nunca foram usadas pelo Sanep, que promete colocá-las em operação em breve

02 de Fevereiro de 2018 - 07h55 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Reservatório R10, com capacidade para um milhão de litros, nunca foi utilizado; morador Clóvis Tarouco acompanhou a construção e o abandono da caixa d'água  (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Reservatório R10, com capacidade para um milhão de litros, nunca foi utilizado; morador Clóvis Tarouco acompanhou a construção e o abandono da caixa d'água (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Apesar da idade - quase 33 anos - o reservatório R7 é outro que nunca teve a oportunidade de entrar em operação (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Apesar da idade - quase 33 anos - o reservatório R7 é outro que nunca teve a oportunidade de entrar em operação (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Sentados à frente da casa na rua Machado de Assis, onde vivem desde 1985, os aposentados Rubin Balz, 74, e Ruth Balz, 70, já viram de tudo acontecer na Vila Gotuzzo, no bairro Fragata, em Pelotas. Lembram-se de quando tudo ao redor era um banhado, das casas vizinhas sendo construídas. Só dizem não ter visto uma coisa: a caixa d'água pública funcionar. Erguida no mesmo ano em que o casal se mudou para o bairro, desde sua conclusão ela continua sem uso. Lá se vão quase 33 anos sem que ela armazene e distribua água.

Chamado pelo Sanep de R7, o reservatório tem capacidade para 500 mil litros de água. Ao lado, outra estrutura capaz de guardar um milhão de litros faz parte do conjunto e também nunca foi usada. Tamanha ociosidade fez com que esta caixa maior chegasse a ser abrigo para moradores de rua até o ano passado, quando a autarquia resolveu fazer uma limpeza do local. De dentro do tanque foram retiradas roupas, cobertas e até um sofá.

"Nunca funcionou. Até as máquinas que tinham da época que construíram já levaram tudo", diz o aposentado. Embora diga que ficar sem água na torneira não seja algo comum, Balz reclama do abandono. "É dinheiro jogado fora todo esse tempo. E poderia melhorar o abastecimento. Não falta água, mas é normal ficar sem pressão nas torneiras, saindo pouca", completa. A filha Angélica, 37, ironiza ao falar do problema enfrentado por mães ao levar e buscar filhos na escola ao lado dos reservatórios em dias de chuva. "Na caixa nunca teve água, em compensação a rua vira uma piscina que deixa a escola isolada."

Já seria ruim se fosse caso único, mas a caixa d'água da Gotuzzo não está sozinha. A torre construída em 1987 (R10) no Py Crespo, bairro Três Vendas, com capacidade para um milhão de litros, também nunca serviu para distribuir água à região. "De vez em quando vem alguém aqui, mexe, anda na volta. Até andaram limpando. Mas botar para funcionar mesmo, nunca", relata Clóvis Tarouco, 54, morador desde a infância da rua Raul Pompéia, esquina São João. Da porta de casa, viu a caixa ser construída e ficar abandonada.

Até o fim do ano
O diretor-presidente do Sanep, Alexandre Garcia, confirma que ambos os reservatórios nunca foram usados. Mas ressalta que a reativação deles está nos planos e deverá ocorrer em breve. Segundo ele, no caso do R7, na Gotuzzo, foram feitos ajustes recentes nos registros e a limpeza interna das caixas. "A previsão é de que até o final de 2018 passe a abastecer o bairro. Para isso, é preciso adquirir novas bombas, pois as originais não funcionam", justifica.

Com relação ao R10, no Py Crespo, o Sanep afirma que no ano passado também houve limpeza e o tanque chegou a ser cheio. Porém, a estrutura não responde plenamente ao atendimento da região, porque desde sua construção houve acréscimo populacional, o que requer ajustes na rede de distribuição. Conforme o superintendente de Operações, Eugênio Magalhães, falta a autarquia receber tubulações para iniciar o abastecimento. "As tubulações são para fechar um anel hidráulico. Foram encomendadas e estão chegando. O R10 está em plenas condições de funcionar."

Casos isolados
Junto à caixa da Praça Piratinino de Almeida, inaugurada em 1875 e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as caixas da Gotuzzo e do Py Crespo são as únicas dentre as 16 da cidade - excluídas aquelas dentro das Estações de Tratamento de Água (ETAs) - que não estão em atividade. Dos 13 reservatórios restantes, 11 funcionam normalmente, um precisa de manutenção para atender com total eficiência e o outro está em fase de testes, pois é uma obra recente.

De acordo com Alexandre Garcia, a projeção é de colocar em operação todos os reservatórios públicos da cidade. Para isso, estão sendo feitas trocas de conexões, registros, tubulações e bombas que enchem as caixas, além de melhorias na rede de distribuição. "Desde o ano passado estamos investindo em obras de subadutoras e fazendo ajustes no sistema para que o abastecimento melhore significativamente. Também estamos fazendo a limpeza das caixas desativadas e vamos colocá-las em uso até o fim do ano", assegura.

A situação dos reservatórios

R1 - Praça Piratinino de Almeida - Desativado, à espera de análise do Iphan para projeto de reativação. Região atendida: Centro. Capacidade: 1,5 milhão de litros.

R3 - Andrade Neves, esquina João Manoel - Reativado em março de 2017 após oito anos fechado. Região atendida: Porto. Capacidade: 2 milhões de litros.

R4 - Andrade Neves, esquina Pinto Martins - Reativado em fevereiro de 2017. Está recebendo manutenção da tubulação e nova bomba para que funcione completamente cheio. Região atendida: Centro. Capacidade: 2 milhões de litros.

R5 - Frontino Vieira - Em funcionamento, mas não dentro do ideal. Precisa de troca de bombas e conexões. Região atendida: Fragata. Capacidade: 1,5 milhão de litros.

R7 - Epitácio Pessoa, próximo à Machado de Assis - Nunca entrou em funcionamento. Já passou por ajuste nos registros e serviço de limpeza. Região atendida: Vila Gotuzzo. Capacidade: 1,5 milhão de litros.

Guabiroba - Em funcionamento. Capacidade: 750 mil litros.

R8 - Mário Peiruque, Vila Bom Jesus - Em funcionamento. Considerado o "calcanhar de Aquiles" do Sanep. Recebeu ajustes para armazenar mais água. Segundo o Sanep, foram comprados novos reatores para as bombas, ainda não instalados porque é preciso um dia inteiro de parada que se reflete em dois dias para recuperação do déficit de abastecimento. "Não vamos fazer imediatamente essa manutenção, pois estamos em um período de muito consumo", justifica Garcia. Região atendida: alto do Areal e praias. Capacidade: 4 milhões de litros.

Moradas - Avenida Ildefonso Simões Lopes - Em testes. Foi exigência do município como contrapartida à construção do residencial Moradas 2. Região atendida: Areal Fundos. Capacidade: 1,5 milhão de litros.

R10 - Rua São João, esquina Raul Pompeia - Nunca foi colocado em funcionamento. Recebeu limpeza e para ser usado depende de ajustes na rede. Região atendida: Py Crespo, Santa Terezinha e Lindoia. Capacidade: 1 milhão de litros.

Cohab Lindoia - Ernani Osmar Blaas, esquina José Correa - Em funcionamento. Capacidade: 470 mil litros.

R11 - Avenida Amazonas, Balneário dos Prazeres - Em funcionamento. Capacidade: 540 mil litros.

R12 - Recanto de Portugal - Em funcionamento. Capacidade: 290 mil litros.

R13 - Estrada da Galateia, Colônia Z-3 - Em funcionamento. Capacidade: 300 mil litros.

R15 - Balneário Santo Antônio - Em funcionamento. Capacidade: 3 milhões de litros.

Posto Branco - Estrada Posto Branco, Colônia Z-3 - Em funcionamento. Capacidade: 20 mil litros.

MB1, MB2 e MB3 - Monte Bonito - Três reservatórios interligados, em funcionamento. Capacidade: 180 mil litros.


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