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Otimismo na Lagoa, mas com olhar desconfiado

Atraso na salga da água, que deveria ter ocorrido entre novembro e dezembro, mas só se deu em janeiro, levanta dúvidas nos pescadores sobre quando e quanto camarão haverá

31 de Janeiro de 2018 - 19h43 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

Família Bernardo acredita que esse ano será diferente (Foto: Paulo Rossi - DP)

Família Bernardo acredita que esse ano será diferente (Foto: Paulo Rossi - DP)

Há quatro anos sem saber o que é voltar da Lagoa dos Patos com as redes cheias de camarão, os pescadores da Colônia Z-3 estão esperançosos para a safra que inicia oficialmente nesta quinta-feira (1) e vai até o final de maio. Porém, resta uma brecha de hesitação. Afinal, o tempo seco que se mantém desde dezembro serviu para que a água salgada entrasse no estuário, condição essencial para a presença do crustáceo. Contudo, a dúvida é: terá sido suficiente para garantir uma pesca farta?

Nesta quarta-feira, enquanto finalizavam a organização dos equipamentos para partir em busca do camarão, os pescadores se dividiam entre aqueles mais otimistas e os que duvidam da fartura. Há 57 anos vivendo da riqueza da lagoa, a família Bernardo faz parte do grupo dos confiantes. Ao lado dos filhos Alexandre, 46, e Leandro, 44, Seu João Manoel aposta que sim, este ano vai ter camarão. “Já tenho uns aninhos de pesca e posso dizer que se não chover forte nas próximas semanas, vai dar uma boa safra”, afirma.

Há, no entanto, quem franza a testa ao ouvir que haverá captura suficiente do crustáceo a ponto de aliviar as dívidas acumuladas pelas cerca de 800 famílias da Z-3. “Não tenho muita expectativa. Tomara que dê safra, mas até agora…”, diz João Laurindo, 64. A dúvida encontra guarida no atraso da salga da lagoa. Ao invés de invadir o estuário entre novembro e dezembro, período considerado ideal para dar tempo ao desenvolvimento do pescado, a água do mar entrou apenas em janeiro. E mesmo assim, até o momento apenas em Rio Grande e São José do Norte isso aconteceu. “Fica difícil prever quando vai ter camarão, quantidade. Coisas que em outras épocas se podia prever com uma certa margem de acertar”, explica Nilmar Conceição, presidente do Sindicato dos Pescadores da Colônia Z-3.

Para a bióloga e extensionista rural e social da Emater, Luísa Iepsen, apesar das expectativas variadas e das diferentes condições da lagoa entre Rio Grande (mais salgada) e Pelotas e São Lourenço do Sul, o certo é que haverá camarão. “Há cinco anos não acontecia de a água do mar entrar, por isso agora a previsão é de boa safra em relação ao que os pescadores vinham enfrentando”, analisa.

A projeção feita pelos trabalhadores é que o preço do quilo varie entre R$ 12,00 e R$ 15,00 dependendo da quantidade que vier das águas. Segundo eles, caso o valor seja inferior a R$ 10 por quilo, a captura do camarão deixará de compensar os gastos. Atualmente tendo apenas a tainha como alternativa de sustento, os pescadores estão recebendo R$ 3,00 por quilo. Valor considerado muito baixo diante dos custos com manutenção das embarcações, óleo diesel (em média R$ 3,70 o litro) e alimentação durante os dias em que permanecem na lagoa.

SAIBA MAIS
- A temporada de pesca do camarão se estende do dia 1º de fevereiro até o final de maio.
- Este ano, a expectativa de captura, por pescador, é de em média cem quilos por semana.
- De acordo com os pescadores, o período de maior fartura deverá ser entre os meses de março e abril.
- O preço médio do quilo do crustáceo comprado direto dos pescadores deverá variar entre R$ 12,00 e R$ 15,00 (com casca) e chegar a R$ 30,00 (limpo).

Antes, as festividades
Embora a partir desta quinta-feira a pesca do camarão esteja oficialmente liberada, o verdadeiro começo da safra só se dá após receber a benção de Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá. Por isso, além dos consertos em redes e outros equipamentos de trabalho, o movimento no Cais da Divinéia era também de preparativos para a festa e procissão pelas águas da lagoa, que ocorre amanhã (leia mais na página 10).

Para os irmãos Josimar, 26, e Leonardo Basgalupe, 20, os últimos dias têm sido de cuidados com o barco em que a família toda irá acompanhar a imagem da santa. “Isso está na nossa raiz, faz parte da nossa tradição. Estamos deixando tudo bonito para agradecer a proteção e pedir uma boa pesca”, explica Josimar, enquanto faz os últimos retoques na pintura.


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