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Bares lamentam o Código de Convivência

Donos de estabelecimentos preveem prejuízo, demissões e enfraquecimento da boemia

28 de Dezembro de 2017 - 09h12 Corrigir A + A -

O Código de Convivência, projeto da prefeitura que integra o programa Pacto Pelotas pela Paz, contém pontos interessantes, como multas estipuladas para quem submeter crianças e adolescentes à exploração sexual, ou ainda a quem expuser mulheres a vexame. É no ponto das bebidas alcoólicas, porém, que ele encontra resistência. A proibição do consumo em vias públicas a partir das 22h, de acordo com proprietários de bares noturnos, pode esvaziar o setor e enfraquecer uma cultura característica da cidade: a de curtir com o céu escuro como companheiro. A ação foi arquivada pela Câmara de Vereadores, mas deve ser levada a plenário em 2018.

Na apresentação do projeto à Câmara de Vereadores, em novembro, a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) o defendeu como importante para coibir a crescente violência em Pelotas - a cidade já registra 104 assassinatos em 2017 e o número de assaltos também grita aos olhos. “(O projeto) combate pequenos delitos que são, comprovadamente, focos de violência ou geradores de violências maiores”, argumentou, enquanto apresentava estudo realizado pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO). Ele aponta que nove mil pessoas, nos últimos 12 meses, se envolveram em brigas, 21 mil foram vítimas de ameaças e um terço da cidade evita sair à noite com medo.

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Um dos locais que devem sofrer caso a proposta entre em vigor é o icônico Bar do Zé, ponto de encontro de pessoas que costumam comprar bebidas no bar e consumi-las na calçada enquanto conversam com os amigos. O estabelecimento, que abre no início da noite, tem pico de movimentação a partir da 1h - muito depois, portanto, do horário que o Código de Convivência prevê que seja cessado o consumo de bebidas alcoólicas em via pública.

A possível alteração revolta o atual proprietário, Ubiratan Prestes. “A população perderá o direito de ir e vir e o direito ao lazer. Como que tu vais deixar de tomar uma cervejinha na frente de casa após um dia inteiro de trabalho?”, comenta, salientando que compreende o fato de o código ter sido pensado para banir atitudes, que condena, como bitucas de cigarro e copos de bebida jogados ao chão. “Mas e as famílias que dependem do salário que nós pagamos, como vão ficar? Hoje são sete, mas terei de demitir por conta do prejuízo”, comenta.

Ubiratan também rechaça a ideia de que o Código de Convivência conseguirá diminuir a violência em Pelotas. “A rua é mais segura quando ocupada pelas pessoas. Com esse projeto, as vias ficarão vazias e mais perigosas”, reclama. Por fim, Prestes lamenta a iminência de ter de promover alterações que descaracterizem o bar, famoso pelas calçadas e mesas ao ar livre. “Vai acabar virando pub, perdendo a proposta.”

Parklets
A Casa Bender Armazém de Secos e Molhados e Espaço de Convivência foi um dos estabelecimentos, no ano passado, a entrar na moda dos parklets - estruturas de madeira colocadas em frente a bares para que clientes possam curtir ao ar livre. Caso o Código de Convivência seja aprovado, porém, também essa alternativa está vetada a partir das 22h, por se tratar de espaço público.

Fabrício Bender, o proprietário, não se posiciona nem completamente a favor, nem mesmo completamente contra. Lamenta que o bar perderá uma hora de movimento - nos parklets, a casa funciona até 23h -, mas cumprirá as regras se elas entrarem em vigor. “Vai impactar nas nossas vendas, mas não vejo muitos problemas para mim. Porém entendo que para outros bares o prejuízo será maior”, comenta.

 


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