Agronegócio

Safra do pêssego tem quebra de mais de 40% e frustra setor

Produtores amargam resultado de uma colheita que já está em 96% e não deve ultrapassar 35 milhões de quilos

26 de Dezembro de 2017 - 07h45 Corrigir A + A -

Por: Tânia Cabistany
taniac@diariopopular.com.br 

Com uma quebra superior a 40%, em decorrência do tempo chuvoso, a safra do pêssego está praticamente concluída: a colheita já atinge 96%. Os últimos dias são para colher a fruta in natura, comercializada pelos produtores abaixo da expectativa. Segundo análise da Ascar-Emater-RS, o resultado desta safra, que não passará dos 35 milhões de quilos, vai impactar a economia da região, principalmente para os persicultores, pois é dinheiro que deixa de circular. O cálculo estimado é de menos R$ 30 milhões. Os valores só estão bons para o consumidor, que compra hoje o quilo do produto in natura entre R$ 2,00 e R$ 5,00, dependendo do tamanho, e em calda, a R$ 5,00, quando já chegou a pagar R$ 9,00.

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Fato. Quebra na safra gera impactos em toda a cadeia produtiva (Foto: paulo Rossi)

O assistente técnico regional de Sistemas de Produção Vegetal da Ascar/Emater-RS, engenheiro agrônomo Evair Ehlert, explica que no valor estimado de safra estão contabilizados os preços depreciados pagos ao produtor pelo quilo da fruta entregue nas agroindústrias, inferiores aos das safras passadas. Salienta que a frustração de safra e a geração de renda decorrem das condições climáticas ocorridas no inverno, com a falta de horas de frio para a plena floração e qualidade de frutos, e uma primavera mais chuvosa, com consequências de alta incidência de podridão parda nos frutos. Somam-se a isso alguns dias com noites muito frias para a época, o que saiu da normalidade do clima da região.

O impacto final veio em função dos estoques mais elevados que o normal nas agroindústrias, advindos da crise nacional brasileira, de endividamento das famílias e queda na renda dessas, impactando diretamente no menor consumo do pêssego em calda (conserva). Estoques mais elevados e diminuição dos preços no atacado para escoar o produto industrializado e reativar as compras pelo consumidor resultaram também em menores preços pagos ao produtor pelo quilo da fruta, com a oferta oficial de preços mínimos pelo Sindocopel.

Destaca que mesmo com esse cenário, os persicultores vão continuar na atividade. Vão conseguir pagar os custos de produção, mas sem gerar renda. As expectativas ficam para uma próxima safra, com a reativação da economia brasileira e a retomada do consumo. De acordo com o presidente da Associação dos Produtores de Pêssego de Pelotas, Mauro Scheunemann, o ano realmente não foi bom e a esperança está depositada em uma melhora nos valores pagos pela indústria. A entidade batalhou por um pagamento de R$ 1,00 a R$ 1,20 o quilo, respectivamente dos tipos 1 e 2, mas a indústria acenou com R$ 0,70 e R$ 0,90.

“Ficou muito abaixo. Esperamos que com essa quebra de safra a indústria se sensibilize e melhore a remuneração para o produtor”, comenta. Quem está vendendo in natura conseguiu um preço melhor, entre R$ 1,50 e R$ 2,00 o quilo, informa Scheunemann. Conforme ele, essa foi a solução encontrada nos últimos 15 dias pelos agricultores para melhorar a situação de resultados dessa safra. “A gente apanha, apanha e não enche a caixa nunca”, reforça o agricultor familiar Carlos Bender, ao comentar sobre a colheita.

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Em 2016 a indústria envasou 58 milhões de latas e este ano não deverá
passar de 35 milhões (Foto: Paulo Rossi)

Perdas também para a indústria
O presidente do Sindicato da Indústria de Doces e Conservas Alimentícias de Pelotas (Sindocopel), Paulo Crochemore, relata que para a indústria o estoque remanescente de latas de compotas de pêssego amenizou a situação de perda. Em função disso, os preços caíram quase à metade. “O resultado desta safra pegou todo mundo de surpresa”, diz, ao acrescentar que foi adiantada 20 dias em todas as variedades, em decorrência da influência do tempo. A indústria não estava preparada para uma colheita iniciada em 10 de outubro, quando o normal seria no mês seguinte. A precocidade também determinou a podridão da fruta.

Em 2016 a indústria envasou 58 milhões de latas e este ano não deverá passar de 35 milhões. “É uma perda significativa”, salienta. Isso refletiu na redução de mão de obra, influenciando diretamente na contratação de colhedores e transportadoras. Acentua que a cadeia toda do pêssego perdeu e isso repercute em todo o país, já que Pelotas é responsável pelo envio de pêssego em calda para o Brasil inteiro.

Por outro lado, o prejuízo deverá servir para regularizar os preços da safra passada, que por ser abundante, não deu lucro. “A cadeia do pêssego se sacrificou para agregar algo na próxima safra, porque esta é uma safra de esquecer. Só vai servir para pagar as contas”, observa. Conforme Crochemore, o mercado brasileiro também deixou de consumir o considerado supérfluo e nesse contexto entra o doce, no caso, o pêssego em calda. A expectativa está depositada em 2018, até para poder remunerar melhor o produtor, assinala.

Consumidor aproveita preços
O consumidor é o único beneficiado com uma safra frustrada, já que os preços caíram. Nos supermercados a fruta in natura pode ser encontrada entre R$ 3,00 e R$ 4,00 o quilo. Além disso, a estratégia das indústrias, de desovar os estoques de compotas do ano passado a valores mais inferiores, foi convidativa para as festas de fim de ano. “Adoro pêssego. A compota está mais barata e eu compro também”, diz a aposentada Sônia Massaú, 70. A dona de casa Dorete de Freitas Cobel, 59, compra a fruta e ela mesma faz a compota em casa. Avalia que os preços do produto in natura não mudaram muito.

Situação na Zona Sul
A safra de pêssego que envolve oito municípios na região, com destaque para Pelotas, com 3.150 hectares de pessegueiros, tem concentração na produção para a indústria para transformar na fruta em calda (conserva de pêssegos), em 13 agroindústrias.

Comparando com as safras normais na região, que variam em torno de 50 a 60 milhões de quilos na normalidade, a deste ano teve uma quebra significativa, de 41,66%.
Fonte: Emater

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