Educação

Greve começa com apoio estudantil em Pelotas

Primeiro dia da paralisação por tempo indeterminado mesclou caminhada de alunos, salas vazias e turno reduzido; anúncio do pagamento de mais duas parcelas não mudará a greve

06 de Setembro de 2017 - 12h08 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Atualizada às 20h29min.

O primeiro dia de greve dos professores e funcionários da rede estadual espalhou a mesma mensagem por diferentes cantos do Rio Grande do Sul: a retomada das atividades e a recuperação dos dias parados estão condicionados ao fim do parcelamento dos salários e do 13º. É a posição da categoria. O anúncio do governo do Estado de pagamento imediato de uma segunda parcela, no valor de R$ 170,00, e de outros R$ 280,00 nesta sexta-feira (8), não altera em nada a mobilização dos trabalhadores.

"A nossa greve se mantém firme porque vai muito além da questão do parcelamento. Entendemos que ele é consequência de um projeto político de sucateamento dos serviços públicos", defende o diretor do 24º Núcleo do Cpers-Sindicato, Mauro Amaral.

Em Pelotas, a greve por tempo indeterminado começou com manifestação de apoio de estudantes. Salas vazias, turno reduzido e preto na fachada de uma das escolas como símbolo da indignação que toma conta dos servidores. A direção do Cpers irá retomar as caravanas por todo o interior do Estado para mobilização dos trabalhadores.

Estimativa do 24º Núcleo indica que a adesão possa ter beirado os 90% em Pelotas. A direção da 5ª Coordenadoria Regional de Educação ainda não havia concluído balanço da paralisação nas 128 escolas da área de abrangência da 5ª CRE, mas o panorama - preliminar -, à tarde, era de greve parcial em 18 municípios da Zona Sul.

Difícil não parar
A interrupção das atividades no Colégio Pedro Osório - que tradicionalmente não paralisa - transformou-se em termômetro do primeiro dia de greve, em Pelotas. Pedaços de TNT preto e cartazes com os dizeres R$ 350,00 é desrespeito e Cidadão, você sustenta sua família com R$ 350,00? serviam de explicação à comunidade.

"Fomos impelidos a fazer esta greve. Os professores não têm como vir trabalhar e mesmo alguns alunos não têm como vir porque são filhos de funcionários do Estado", afirma a vice-diretora do turno da manhã, Cátia Rolan. E no tom de indignação que se prolifera por toda a categoria, devolveu a José Ivo Sartori (PMDB) a indagação: "E agora governador? O Enem tá próximo. Como vamos atender a necessidade dos alunos?".

Manifesto estudantil por uma mesma causa
Cerca de 25 alunos da Escola Nossa Senhora de Lourdes foram às ruas em apoio à decisão dos professores, ainda que se preocupem com o período sem aulas. Em caminhada, os jovens engrossaram o coro de protesto pelo parcelamento dos salários: Sartori caloteiro, paga o dinheiro. Com mochilas nas costas e cartazes em mãos - mesmo que rasgados em função do vento -, os estudantes percorreram da rua General Osório, esquina Lobo da Costa, até o chafariz das Três Meninas, no Calçadão. "Estaremos juntos na luta até o pagamento dos salários", reforçou a aluna do 1º ano do Ensino Médio, Nina Cardozo, 14.

Para um dos integrantes do Conselho Escolar, Jean Knepper, 17, o momento também é de engajamento. Nas redes sociais, o aluno do 3º ano já alterou inclusive a foto do perfil no Facebook e estampa a mensagem: "Eu apoio a greve. Justiça para a educação pública".

"Alguém tem que gritar. Pedir socorro"
O 21º parcelamento de salários não para de deixar rastros e quebrar com qualquer possibilidade de planejamento familiar. Com o nível de estresse em alta, Carmem Teixeira, 61, já não se preocupa com qualquer risco de represália. Professora contratada, ela tem precisado contar com o suporte financeiro dos filhos. A renda da mãe, de 84 anos, não raro é engolida por tratamentos de saúde para fibrose pulmonar. Remédios, médicos, exames. Pouco sobra para contribuir no orçamento.

"A gente tá com água pelo nariz. Está no limite. Por isso, alguém tem que gritar, tem que pedir socorro", desabafa a educadora, sem receio de se identificar e ter o contrato rescindido. As contas não param de chegar. E embora o governo confirme, a todo o momento, os novos parcelamentos, para comprar pão, leite e gás não há como parcelar - enfatiza. "Por isso, entendo que esta é uma hora de união. Estamos lutando, todos, por uma mesma causa. Então, temos que parar."

A adesão em outras escolas
- Cassiano do Nascimento - O Colégio ficou totalmente sem aulas durante a manhã. No turno da tarde, as atividades se restringiram às Séries Iniciais, do 1º ao 4º ano. À noite, apenas o curso de Contabilidade funcionaria.

- Assis Brasil - Os alunos, do pré até o 5º ano, foram atendidos em turno reduzido. Pela manhã foram liberados às 10h e, à tarde, às 15h30min. Para os demais estudantes, atividades suspensas.

- Dom João Braga - Pelo menos 60% dos professores compareceram ao trabalho, entre a manhã e a tarde de quarta-feira. O número reduzidíssimo de alunos, entretanto, fez com que a maioria das aulas não ocorresse. Ao chegar ao Colégio e verificar a ausência dos colegas, alguns estudantes preferiram voltar para casa.

A posição do governo
O titular da 5ª CRE, Carlos Humberto Vieira, voltou a afirmar ao Diário Popular - assim como em entrevista no início de agosto - que respeita o movimento de greve e reconhece a situação de extrema dificuldade econômica dos trabalhadores. "Não somos insensíveis. Todos nós somos profissionais", destacou o coordenador, com 34 anos de carreira.

Vieira preferiu, no entanto, não projetar o futuro diante do impasse entre a posição de professores e funcionários em estender a greve e a perspectiva de novos parcelamentos, com valores incertos. "Prefiro acreditar que a situação será revertida."

No meio da tarde de quarta-feira, a Secretaria Estadual da Fazenda anunciou o pagamento imediato de R$ 170,00, além de uma terceira parcela no valor de R$ 280,00 para ser creditada aos servidores do Executivo nesta sexta-feira. Com as três parcelas, os trabalhadores terão recebido um total de R$ 800,00, por matrícula. A previsão de quitação da folha de pagamento do mês de agosto se mantém para a quarta-feira, 13 de setembro.

O impasse entre categoria e governo, entretanto, deve estar longe de chegar ao fim. Os servidores exigem o cumprimento da Constituição Estadual e o pagamento dos salários em dia.


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