Lembranças

Repetindo a vida na Estação Férrea

Prédio que abriga Procon, Cerest, Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas tem movimentado a região dos trilhos

10 de Julho de 2017 - 06h32 Corrigir A + A -
Trabalhador. O Cerest presta atendimento ao público há dois anos no local (Foto: Jô Folha - DP)

Trabalhador. O Cerest presta atendimento ao público há dois anos no local (Foto: Jô Folha - DP)

Quando o trem parou de carregar gente, tudo parou por ali. A Estação Férrea de Pelotas encerrou oficialmente suas atividades em 1998 - de lá, foram 16 anos de espera para que o local ganhasse vida novamente. Antes palco de um vai e vem entre uma cidade e outra, a melancolia de um transporte praticamente em desuso no país hoje abre portas para o funcionamento de outros serviços. O prédio foi reinaugurado em 2014 após dois anos de restauro e agora abriga órgãos como o Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerest), o Serviço de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) e o Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas (IHGP). Após a obra, que envolveu a instalação de internet e ar-condicionado, o prédio que um dia se viu deteriorado pelo tempo hoje é solo para a circulação de muitos pelotenses.

Em 2015 vieram Procon e Cerest e, um ano depois, o IHGP. Um posto da Guarda Municipal (GM) também funcionou no local, desativado em 2016. Antes, devido ao abandono, o imóvel servia de abrigo para usuários de drogas.

Para recuperar os 1,4 mil metros quadrados de área construída, as secretarias de Cultura (Secult) e Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana (SGCMU) elaboraram em 2008 um projeto de restauro. Por ser tombada como patrimônio municipal pela lei 4.315, a empreitada teve de ser aprovada pelo Iphan para que a preservação de suas características fosse garantida. A reforma começou com orçamento de R$ 2.790.329,00 em 2012, sendo finalizada em dezembro de 2014.

A antiga Estação Férrea, com arquitetura semelhante às estações francesas, atendia as linhas Rio Grande - Pelotas - Bagé. Ponto de chegada para vários imigrantes, também era responsável pela distribuição de alimentos e objetos de todo o tipo, além de empregar centenas de pelotenses. Agora, os funcionários que trabalham ali convivem com uma peculiaridade própria de um lugar que mistura passado e presente: como o trem ainda é utilizado para cargas, passa pelos trilhos quase que diariamente, tremendo o prédio e fazendo um barulho nostálgico, remetendo às décadas em que era uma das principais formas de transporte.

Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas (IHGP)
O IHGP ocupou a entrada da estação no dia 18 de dezembro de 2016. A instituição guarda mais de 40 mil documentos relativos a Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil e demais países da América Latina. Documentos oficiais como certidões, fotografias e livros são alguns dos artigos que integram o acervo. Um exemplo: a família do doutor Alexandre Cassiano do Nascimento (1856 - 1912), cidadão pelotense que foi senador durante a República Velha, doou todos os documentos do político ao Instituto. Objetos que precisam ser restaurados estão aguardando destino em um anexo do prédio, antes utilizado pela Guarda Municipal. 

Presidente do Instituto, Gilberto Demari Alves é saudosista da época em que viajava de trem. Trabalhar no local que frequentou durante a adolescência é como reviver uma série de memórias. “Para ir até Santa Maria, por exemplo, primeiro fazíamos uma baldeação em Cacequi. Tudo aqui me remete àquele passado”, relembra, fazendo questão de destacar que a cidade teve no trem o apogeu de seu desenvolvimento. “Gado, tecidos, notícias, documentos... tudo vinha de trem. Depois, Pelotas virou as costas para a Estação e para o Porto. Somente agora o município começa a dar atenção para esses locais novamente.” A criação de um museu do instituto aguarda a compra de um aparelho extrator de umidade, essencial para manter os objetos históricos em boas condições. Por enquanto, ainda não há previsão para ficar pronto.

Centro de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerest)
Já o Cerest está no prédio desde fevereiro de 2015. O Centro tem como principal objetivo prevenir acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, realizando vistorias nos ambientes de trabalho, atendendo pacientes de fisioterapia e trabalhadores de 28 cidades da Zona Sul. Maristela Irazoqui, coordenadora do órgão, conta que a população vem em busca de orientações, buscando saber o que é oferecido no espaço. “Muitos também chegam para conhecer o prédio após o restauro”, disse. A recuperação do local também deu lugar para eventos, palestras, reuniões do secretariado municipal e encontros de demais autoridades.

Serviço de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon)
O Procon ficou sem sede própria por dez anos até janeiro de 2016, quando garantiu um espaço na antiga estação - conquista muito comemorada pelo órgão. Todos os assuntos que envolvem o direito do consumidor, assegurada pelo Código de Defesa (Lei 6078/1990), são tratados pelo Procon. A supervisora Nóris Finger relata que o espaço ainda é reduzido e alguns setores trabalham na mesma sala, “mas a comodidade da localização e a natureza ao redor transformam o ambiente”. São feitos em torno de 50 atendimentos diários, além daqueles via telefone. “Fora as pessoas de outras cidades que vêm aqui para conhecer o prédio, com interesse em saber quando passa o trem”, destaca.

Valorização da região através da cultura
Moradores do Simões Lopes só precisam cruzar a passarela dos trilhos para chegar até o prédio. Alessandro Pinto faz o trajeto diariamente até o trabalho e reconhece a transformação que ocorreu após a chegada dos órgãos. “Era uma área abandonada. Hoje até eventos culturais acontecem aqui. Como trabalho perto, vejo a movimentação e como as pessoas gostam de participar”, afirma.

Uma das programações que acontece tradicionalmente na praça Rio Grande, espaço em frente à estação, é o Disco Xepa. O evento propõe um dia na rua experimentando bebidas artesanais e pratos feitos com o reaproveitamento de alimentos, unindo a história do patrimônio aos sabores locais. O festival de Food Trucks é outra atração que ocorre ali. A segunda edição será entre os dias 20 e 23 deste mês.

O incentivo ao uso daquela área faz parte de um plano da Secult, que procura sugerir aos produtores culturais que realizem eventos na região. “O Largo de Portugal é um excelente espaço para eventos desse tipo. Mais do que tudo, queremos que a comunidade aproveite os espaços que tem”, conta o titular da pasta, Giorgio Ronna.

A Secult também organiza uma exposição do Memorial da Estação Férrea de Pelotas, marcada para o Dia do Patrimônio, que será comemorado na cidade nos dias 18, 19 e 20 de agosto. A realização do memorial foi uma das contrapartidas exigidas pelo Iphan após a revitalização do prédio. Segundo Ronna, o trabalho realizado no imóvel é motivo de orgulho para os arquitetos da secretaria. “A arquitetura e suas características continuam exatamente iguais. Tudo foi preservado e em ótimas condições.”

Para enriquecer a região, a Secretaria de Planejamento e Gestão (Seplag) trabalha com um projeto de reforma do Largo de Portugal e da rua Saldanha Marinho, ainda em fase de análise e conclusão.

Nas telas
Ao longo de 2015, a equipe do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Produção em Antropologia da Imagem e do Som (Leppais) da UFPel deu pontapé em um projeto de valorização da antiga Estação Férrea. O grupo visitou famílias que moram próximo aos trilhos, conversando com a comunidade no entorno do prédio e ali registrando depoimentos de trabalhadores, passageiros e entusiastas do sistema ferroviário. A obra mostra como a Estação ritmou a vida, o trabalho, a comunicação e todo um modo de ser ligado à ferrovia. O resultado foi o documentário Vida nos trilhos: memórias da Estação Férrea de Pelotas, coordenado pela professora de antropologia Cláudia Turra Magni. O projeto é vinculado ao memorial da estação.

SERVIÇO
►Cerest: 12h30min até 18h30min, de segunda a sexta-feira

►IHGP : 13h30min até 17h30min, de segunda a sexta-feira

►PROCON: 12h30min até 18h30min, de segunda a sexta-feira


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