O tempo é o segundo trabalho gravado de Paulo Timm, Hélio Ramirez e Martim César (Foto: Ediane Oliveira - Especial - DP)

O tempo é o segundo trabalho gravado de Paulo Timm, Hélio Ramirez e Martim César (Foto: Ediane Oliveira - Especial - DP)

Lançamento

Reflexão em prosa e verso

Grupo Caminhos de Si lança disco que aborda a literatura, a ecologia e a história da América Latina de forma contundente

14 de Abril de 2016 - 10h29 Corrigir A + A -
O tempo é o segundo trabalho gravado de Paulo Timm, Hélio Ramirez e Martim César (Foto: Ediane Oliveira - Especial - DP)

O tempo é o segundo trabalho gravado de Paulo Timm, Hélio Ramirez e Martim César (Foto: Ediane Oliveira - Especial - DP)

Não pensem que esquecemos Pinochet/E os ianques que eram lobos disfarçados/Sob um condor que se fartou do alheio sangue/De um continente para sempre mutilado fala na canção A verdade da memória o grupo Caminhos de Si, formado pelos jaguarenses Paulo Timm, Hélio Ramirez e Martim César. O duro recado que a composição é àqueles que apostam na memória curta do século 21 para trazer de volta ideias como a ditadura militar se estende por todo o disco O tempo, que conta com financiamento do Procultura Pelotas e tem lançamento marcado para amanhã com show na Bibliotheca Pública Pelotense.
A união do trio tem início ainda em 2003, em uma apresentação nos áureos tempos do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Posteriormente, o show ocorreu também no Projeto 277, do Theatro Sete de Abril, no mesmo ano. 2004 é a data do primeiro disco, independente, lançado no também jaguarense Theatro Esperança, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, e no mesmo local da segunda apresentação.
Em 2005 a fronteira foi cruzada, linha imaginária que é, e o Caminhos de Si rumou ao Uruguai, realizando espetáculos no teatro Florêncio Sanchez, em Paysandú, no teatro España, em Melo, e no teatro AEBU, em Montevidéu. Sempre juntando, nas ocasiões, a música, a poesia e o teatro - na apresentação de sexta-feira haverá, por exemplo, interferências de dois atores interpretando Dom Quixote e Sancho Panza.

Da fronteira
O tempo, segundo disco do grupo, reúne 15 músicas, entre composições dos três carregadas na influência da estética da fronteira Brasil-Uruguai-Argentina, bem como do restante da América Latina, sem deixar fora a incorporação de elementos de Renato Teixeira, Almir Sater, Chico Buarque, Luiz Gonzaga.
Segundo Paulo Timm, essa absorção de diferentes vertentes - que muito em comum têm - se deu para que as canções, apesar de regionais, fossem universais. “Como diz o (Aldyr Garcia) Schlee, a gente vai do outro lado da fronteira sem sair deste. Vai ao exterior sem sair do interior”, comenta Martim César, citando o autor da orelha do disco e criador do personagem Don Sejanes, incluído no projeto através da canção Milonga por Don Sejanes. Para Timm, a diversidade no trabalho também se dá através da participação dos músicos Gil Soares, na flauta, Leonardo Oxley, no violino, Aluísio Rochemback, no acordeom, Maria Conceição, entre outros.
Da instigação
Ferrenhos paladinos das raízes da fronteira, Timm, César e Ramirez fazem do disco uma arma para falar sobre ecologia, literatura, história. Há canções que tratam, por exemplo, dos regimes ditatoriais na América Latina, apoiados pelos Estados Unidos, bem como o pampa, com o intuito de tornar o bioma mais conhecido na única região onde ele é encontrado. “Isso instiga a pessoa a procurar mais informações sobre os temas abordados. Abre caminhos para a realidade latino-americana”, afirma Ramirez.
César destaca também o cuidado dado à questão do índio, atual em Pelotas por conta da tribo kaingang que resiste bravamente na região da Estação Rodoviária (Eterpel). “Perderam sua terra. Queremos despertar para que se perceba aquelas pessoas não pelo lado da miséria, mas sim pela riqueza que lhes foi roubada”, diz, ao que é acompanhado por Ramirez. “A mesma coisa em relação à questão negra. Cada casarão dessa região foi construído com arquitetura branca, mas a mão de obra negra e muitas vezes escrava. Então é importante jogar luz no horror que era isso.”

Oficinas
Para que a mensagem de resistência latino-americana chegue a todos os públicos, o projeto do Caminhos de Si aprovado no Procultura conta também com oficinas realizadas nas escolas da região, abordando música, literatura, teatro, ecologia e história.
Conta César que, surpreendentemente, as crianças absorveram muito bem a proposta, com intensa participação. Crê que a boa recepção se deu pelas semelhanças com a própria grade curricular - apesar de abordar tais temas por outro viés. “Não é um CD só pra se ouvir, mas também para se ler. Se der, é bom encará-lo quase como um livro. Cada melodia, cada letra, no final funciona como se fosse um romance”, completa.

Serviço
O quê: lançamento do disco O tempo, do grupo Caminhos de Si
Quando: amanhã, às 20h
Onde: Bibliotheca Pública Pelotense
Entrada franca


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados