Produção de terror foi custeada pelos próprios diretores

Produção de terror foi custeada pelos próprios diretores

Cinema

Sombras da escravidão

Fantasma amaldiçoado de um fazendeiro torturador de escravos persegue grupo de jovens no filme nacional O diabo mora aqui

06 de Agosto de 2016 - 20h30 Corrigir A + A -

Agência Estado

Produção de terror foi custeada pelos próprios diretores

Produção de terror foi custeada pelos próprios diretores

O que o gênero horror teen é muito bem-sucedido, todos sabem. Adolescentes gostam de sentir medo. Normal, portanto, que o cinema brasileiro passe a dele se ocupar, como é o caso deste O diabo mora aqui, de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini.

A produção gaba-se do caráter amadorístico do longa: teria custado meros R$ 250 mil e ignorado as leis de incentivo na captação de recursos. Isso não seria importante, se não fosse alardeado. Mas é. Apresenta-se, por esse despojamento financeiro, como filme feito “na garra” e com paixão pelo ofício, o que é a essência do espírito amador.

No entanto, tal precariedade não se vê na parte técnica. Ao contrário. Percebe-se, já nas primeiras cenas, a qualidade da fotografia, de Kauê Zilli. Tem intensidade nas sequências em que capta formigas e abelhas e expõe a concepção tirânica do vilão de que “rainhas devem ser domesticadas”. Trata-se de um bom início.

O longa (80 minutos) tem também o mérito de mergulhar na tradição brasileira. No caso, a pior tradição, a maior mancha histórica do país, a escravidão, que lança suas sombras até hoje. O enredo relembra um terrível senhor de terras do século 19, um tal de Barão do Mel (Ivo Müller), que se divertia torturando seus escravos.

É nessa fazenda, agora no tempo atual, que os adolescentes se dispõem a passar um fim de semana legal. Os jovens Jorge, Apolo, Alexandra e Magu fazem chacota com a tal história e não acreditam em nada, até que... Bem, é sempre assim quando os filmes mexem com temas do sobrenatural. O início naturalista, a dúvida inicial diante de alguns fenômenos, incredulidade que cobra seu preço à medida que começam a aparecer os fantasmas e espectros que moram na sombra.

No roteiro é que as coisas começam a pegar mal. Apesar do bom ponto de partida não encontra um desenvolvimento capaz de manter a atenção o tempo todo. Faltam ideias para sustentar mesmo um filme de corte sintético como este. Em razão do déficit da história rala, há que se preencher tempo com sustos, sangue e cenas cruéis em profusão. Não se está aqui no campo do terror psicológico, mas do horror explícito, ainda que matizado por uma ou outra boa ideia.

De qualquer forma, ainda que às vezes toscamente realizado, sobra a O diabo mora aqui essa boa intuição inicial, a de colocar a escravidão como horizonte de horror que paira sobre a sociedade brasileira. Esse é um espectro que não quer morrer.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados