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Quer apanhar?

04 de Setembro de 2015 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Eduarda Damé, psicóloga

Pensar em crianças, é pensar em seres humanos capazes, inteligentes e dispostos a aprender, porém seres humanos distintos dos adultos.

A infância representa uma fase de desenvolvimento intenso. Nesta fase, as crianças estão conhecendo o mundo e conhecendo a si mesmas, buscando sua compreensão. Esse conhecimento é adquirido através da exploração e dos sentidos, como observação. Além do mais, como todos os outros seres humanos, são seres relacionais, dependentes e também influenciados pelo ambiente afetivo em que vivem.

Como o senso crítico e a personalidade ainda estão em formação, as crianças utilizarão do seu ambiente para a obtenção de informação e de modelos a seguir, assim elas aprenderão a fazer as coisas, a falar, a se comportar e a interagir. A técnica da imitação, muito utilizada por eles, nos mostra que aquilo que fazemos na frente das crianças é mais significativo do que aquilo que falamos.

Ainda assim, educar é preciso e isso não é uma tarefa fácil. Exige dedicação, paciência e compreensão constante dos cuidadores. Mas é nesse contexto, muitas vezes por falta de informação, que surge a famosa "palmadinha", quando não outro tipo de agressão física ou ameaça. Você já parou para refletir o que realmente está ensinando ao seu filho com isso?

Agressão física, antes de mais nada, é um momento impulsivo, geralmente movido pela raiva ou pelo desespero, descontrole, de ter algo que você quer e impor ou expor isso ao outro fisicamente. Levando em consideração ao que foi dito anteriormente, e se você estiver transmitindo a ideia para o seu filho de que está tudo bem em agredir alguém para obter aquilo que quer? Existem diversas pesquisas afirmando que a agressão física na educação infantil só traz malefícios. Já foram identificados, por exemplo, traços de agressão no comportamento infantil e deficiências no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças agredidas pelos cuidadores. Quanto mais intensa a agressão dos cuidadores, maior o nível do comprometimento infantil. Lembremos, porém, que nossa mente se manifesta por níveis conscientes e inconscientes, e que também é possível que algumas consequências permaneçam em áreas de nossa mente pouco acessadas ou visíveis.

Dar uma palmada pode até fazer com que a criança pare com determinado comportamento naquele momento, mas isso é apenas uma repressão física e não um ensinamento profundo do que é certo e do que é errado. Se ainda assim não está claro, eu pergunto: Como você se sentiria se a professora ou a babá do seu filho o agredisse? Você ainda consideraria como uma prática saudável, como uma profissional capacitada para cuidá-lo?

O comportamento de testar da criança, muitas vezes, é reflexo de sua experimentação com o mundo externo. É fundamental que o cuidador não leve para o lado pessoal, como uma afronta. A partir desse teste, a criança busca entender o funcionamento do que há ao redor dela. Ela quer aprender, quer saber o que acontece. É importante que você mantenha a coerência nas suas palavras, e isso também significa ser consistente nas suas atitudes. Ela o está observando e aprendendo com você! Ser incoerente, mostrará que você quebra com a sua palavra, e a deixará confusa em relação às regras e aos limites estabelecidos.

Quando você perceber algo de errado, se questione, em primeiro lugar se o comportamento que você esperava está de acordo com a fase de desenvolvimento da criança. Em segundo lugar, pense qual é o melhor tipo de intervenção que você pode fazer, pense nas suas alternativas e opte sempre pela mais gentil e pacífica - tenha em mente que firmeza e agressividade são coisas distintas. De preferência, converse com a criança, de forma calma, clara e objetiva sobre o que acabou de acontecer. Não priorize o discurso naquilo que ela não deve fazer, mas no que ela pode fazer. Também fuja de frases que reforcem o erro ou que desmereçam a criança por algo que ela tenha feito. O fato de ela ter errado em alguma coisa não significa que seja burra ou incapaz, por exemplo. Falar isso a ela é desmerece-la como todo, o que pode gerar inseguranças futuras, sentimentos de desvalia e uma visão distorcida de si mesma.

Como citado acima, somos seres relacionais e isso significa e reflete mais na vida do seu filho do que você pode imaginar. É preciso que se tenha paciência para ensinar e explicar às crianças o que se mostra necessário. Converse e mostre o que a criança deve e pode fazer, e saiba que a educação é um processo, e é construída diariamente, tijolinho por tijolinho. A criança não tem obrigação de pensar como o adulto, mas o adulto deve, em sua condição de maior maturidade, flexibilizar-se para conversar com a criança de modo que ela possa entendê-lo, possibilitando o contato destes dois mundos - adulto e infantil - de forma harmônica e construtiva. Lembre-se: gentileza gera gentileza. O amor e o carinho serão sempre as melhores ferramentas para uma educação saudável.


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