Ponto de Vista

Que meu fogo seja sagrado: três mulheres imprescindíveis em Maria Falkembach

28 de Agosto de 2015 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger, professor da UFPel, cantor, ator e diretor teatral

Votar na vida, no amor, na arte, no sim e em você, você mesmo que está lendo este artigo, deve ser uma decisão dificílima em tempos de utilitarismos, de intolerância, de banalidade do mal e de egoísmos infantis. Talvez porque tomamos como sagrado tudo que nos afasta dos outros, nos entorpece de medo, ingenuidade ou ignorância. No espetáculo de dança-teatro Destecendo Penélope Bloom, em curta temporada no Teatro do Sest-Senat de Pelotas, a bailarina e atriz Maria Falkembach nos oferece a reflexão contundente através de três mulheres (e as boas e belas transformações humanas só acontecem a partir da mão e do olhar feminino e, por isso, as bancadas evangélicas e da bala querem emudecer as mulheres) que nos desacomodam e indagam: o que estamos fazendo de nossa vida? O que estamos fazendo com os outros, os diferentes da gente? Por que aceitamos dogmas religiosos e preconceitos que nos constrangem, que nos impedem de amar, de viver, de criar, de estar, livremente, com o outro? Penélope, Molly Bloom e Maria tecem e destecem o tecido da ontologia de nossas escolhas, do pensamento sobre o qual não pensamos, das vendas que cobrem nossos olhos, dos machismos que nos contaminam. A literatura como movimento e o corpo feito poesia encarnada, atemporal, o mito grego, a grande obra de Joyce dos começos do século 20 e os nossos dias de Maria. O espetáculo vai tomando conta de nossos sentidos; pouco a pouco, vai cavoucando nossos pilares; delicadamente, vai afrouxando nossas certezas; pela vida boa, vai regando o feminino em cada um de nós. É arte e é carne, por isso, não é fácil, mas é imprescindível. Do quarto ao píer e, no caminho, a desconstrução da caixa preta e da ilusão que nos protege como se não fosse conosco, Maria está inteira e lúcida, segura do que ela, Molly e Penélope são sendo e têm a dizer. Há uma quarta mulher neste espetáculo: Júlia Rodrigues, a diretora que brinda com o delicioso licor de sua mão e olhar. A trilha de Leandro Maia mais uma vez revela o grande compositor que ele é. A iluminação desenhada e operada por Daniel Furtado cria as atmosferas que o corpo/poesia solicita. Destecendo Penélope Bloom é um espetáculo imperdível. Aguardem o DVD. Por outro lado, mostra o acerto do Procultura e exibe para a cidade mais um espaço para as produções locais das artes, o aconchegante teatro do Sest-Senat.

 


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados