Artigo

Wall-E e a sua realidade não tão distante

26 de Agosto de 2015 - 05h00 Corrigir A + A -

Por Eduarda Damé, psicóloga¶

Lançado pela Pixar, em 2008, o filme Wall-E fala de uma época em que a Terra está inabitada e os seres humanos, por sua vez, vivem no espaço dentro de uma grande e maravilhosa nave. No planeta Terra, além de destroços, está Wall-E, um robozinho solitário (não fosse uma barata sobrevivente, sua única companhia) que está lá para limpar e organizar a absurda quantidade de lixo deixada. Então, surge Eva, uma robô bem mais moderna, enviada pela nave onde habitam os seres humanos (Axion), que vai à Terra procurando algum sinal de vida.

Quando Eva chega à Terra logo notamos sua diferença com Wall-E. Eva é de uma tecnologia notavelmente mais atual, sendo dotada de maiores recursos e funções, enquanto Wall-E, além de maltratado pelas condições ambientais, se mostra bem mais simplório. No entanto, Eva apresenta uma personalidade mais fria e calculista. Não demonstrando empatia por Wall-E nas primeiras vezes que o viu, e inclinando-se a destruir qualquer coisa que parecesse a ela uma ameaça. Wall-E, por outro lado, é claramente amoroso e sensível, e tenta se aproximar da nova companhia a todo custo. Aos poucos e com a convivência de Wall-E, o jeito de Eva sofre modificações. Talvez com essa simples relação possamos refletir sobre aspectos "antiquados" de nosso ser que devem ser relembrados nessa época onde obtemos um perfil considerado por muitos como "moderno, tecnológico e avançado".

Outro aspecto interessante, é refletirmos sobre a forma como a nave, onde os seres humanos viviam, funcionava. Lá, tanto robôs quanto pessoas andavam em linhas específicas (tais como vias de trânsito). A ordem se mostrava perfeita e era fortemente afetada quando um se equivocava ou era surpreendido pelo caminho. Os robôs, como empregados da população, claramente faziam trabalhos mecanicistas, esquematizados, também negando "corpos estranhos" e buscando manter o ambiente "perfeccionista" e em ordem. Mas a realidade das pessoas não era diferente.

A população vivia em grandes cadeiras, que ora serviam de cama ou de meio de transporte. Elas simplesmente não saíam dessas cadeiras. Devido a isso, nota-se o sobrepeso (também sofreram perda da estrutura óssea devido à gravidade zero). Tudo o que tinham necessidade de fazer, como abrir um guarda-sol, era realizado pelas máquinas. Além disso, eles passavam todo o tempo em frente às telas, espécimes de computadores, que serviam também para comunicação - ou seja, passavam integralmente em "redes sociais on-line" para se comunicar. O caso era tão grave que tão pouco olhavam uns para os outros, mesmo quando estavam lado a lado. Passavam simplesmente vidrados na telinha. Obviamente, esse processo passa despercebido, negado, e durante suas conversas notamos que agem como se fossem pessoas realmente muito ativas, falando de seus compromissos e atividades. Em determinado momento, inclusive, podemos notar o funcionamento esquematizado das pessoas quando é dito a todos que "o azul é o novo vermelho" e imediatamente toda a população muda a cor da roupa, que é padronizada.

A educação infantil também aparece sofrendo forte influência da tecnologia. Bebês são educados por uma professora-robô que utiliza de recurso uma grande tela onde passa o abecedário - é interessante perceber a expressão vidrada das crianças nesta cena, semelhantes a estudos já realizados com crianças reais em frente à televisão.

Quando acidentalmente uma personagem (Mary) desvia o olhar de sua tela, percebe o universo à sua volta e se surpreende. Em determinado momento ela diz: "Uau, eu não sabia que tínhamos uma piscina! ". Olha cada coisa com espanto, pois, embora aquele tivera sido seu ambiente desde sempre (afinal, ela não tinha mais para onde ir), vivia, na realidade, em num mundo virtual. Wall-E (o "antiquado e amoroso") ocasiona esses momentos de "desencantamento virtual" onde algumas personagens vão, pouco a pouco, "voltando à vida". Inclusive, é a partir desta oportunidade que Mary e John começam a interagir fora da realidade virtual. Essa interação torna-se engraçada pois são os únicos, até parte do filme, que estão interagindo fora das telinhas. Mary e John estavam tomando as rédeas de suas próprias vidas e indo contra os sistemas estabelecidos na nave.

As situações envolvendo o capitão também são bastante ricas em simbologias. O hábito de receber tudo pronto das máquinas, que conversavam com as pessoas dando-lhes todas as respostas necessárias, mostrou a deterioração do hábito da leitura. Quando o capitão pega o manual para ler, mostra-se atrapalhado e, como se o livro fosse uma pessoa, diz à ele: "Manuel, transmita as instruções!".

Mas a principal questão envolvendo o capitão da Axion é sua relação com a máquina. Em determinado momento do enredo, algumas máquinas tramam contra o capitão, pois querem evitar que sua vontade seja feita. Mostrando obter vontade própria, e também dando a entender que conseguiram persuadir os capitães anteriores, levanta-se a questão sob a verdadeira relação de poder. Quem domina quem? Os humanos dominam as máquinas ou vice-versa?

A animação Wall-E é um prato cheio para refletirmos sobre a nossa realidade atual, sendo desnecessário projetar isso para anos futuros. Acredito que seja fácil e possível associar os tópicos citados à nossa relação com a tecnologia, com o meio ambiente, e com os demais. Já é possível visualizar que as pessoas passam "vidradas" em suas telinhas, muitas vezes esquivando-se das relações "reais". Estamos inclusos em um sistema exigente, onde precisamos ser cada vez melhores e mais qualificados. Passamos a maior parte de nossas vidas sentados estudando ou trabalhando, cumprindo tarefas que são, em sua maioria, intelectuais, mas fisicamente ociosas. Se refletirmos profundamente em nossas funções dentro deste sistema, concluiremos o quão mecanicamente estamos vivendo nossas vidas. Até que ponto estamos explorando e investindo em nossa relação com o ambiente e com os nossos iguais?


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