Prejuízo

Pescadores de Pelotas e região estão pessimistas em relação a safra do camarão

Para agravar ainda mais a situação, trabalhadores estão atolados por causa de financiamentos contraídos em 2014, não pagos em 2015, que também não serão pagos este ano

10 de Janeiro de 2016 - 06h30 Corrigir A + A -

Por: Tânia Cabistany
taniac@diariopopular.com.br 

Fotos: Paulo Rossi

Pelo terceiro ano consecutivo a safra de camarão deve ser um fracasso. Pessimistas porque a lagoa está cheia e a água doce devido ao excesso de chuva, os 1,1 mil pescadores de Pelotas vêm tendo prejuízos também com a tainha e a corvina. Há tão pouco peixe disponível das duas espécies cuja captura é permitida nesta época que não compensa sair. Em resumo: os barcos estão todos atracados na Colônia Z-3 e o desânimo é geral.

Mais uma vez o fator climático é o responsável e os pescadores não sabem o que fazer, comenta o presidente do Sindicato que representa a categoria, Nilmar Conceição. Para salgar a água seria necessário que a lagoa baixasse, mas isso não acontece devido à constância de períodos chuvosos, consequência do fenômeno El Niño. A 21 dias do início da safra, dificilmente o cenário será revertido.

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Para agravar ainda mais a situação, os pescadores estão atolados por causa de financiamentos contraídos em 2014, não pagos em 2015, que também não serão pagos este ano. No dia 28 deste mês, em Rio Grande, será realizada reunião do Fórum da Lagoa dos Patos, que reúne as colônias do estuário. Na última, em novembro do ano passado, já ficou encaminhado pedido de solução emergencial encaminhado ao governo federal, de liberação de mais duas parcelas do seguro defeso. Em 2010 os pescadores conseguiram isso, mas de lá para cá não mais. O benefício começa a ser pago em junho e vai até setembro.

A prorrogação da dívida no Banco do Brasil é outro encaminhamento da categoria, até agora não atendido pelo governo federal. “Estão passando por dificuldades, tem pescador com parcela de R$ 2 mil (ao ano) e não vai ter como pagar de novo”, afirma o líder sindical. Soluções paliativas também devem ser discutidas no fórum, entre elas a liberação de cestas básicas, pois a situação é de dificuldade.

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Ano passado foram solicitadas cestas básicas para as 2,6 mil famílias de pescadores artesanais da Zona Sul (Pelotas, Rio Grande, São José do Norte, São Lourenço do Sul e Tavares) e encaminhado pedido para a ampliação do seguro defeso e a alteração na portaria que regulamenta o calendário da pesca do camarão. As audiências ocorreram nos ministérios da Pesca, Trabalho e Desenvolvimento Social. A liberação das cestas básicas distribuídas pelo Ministério do Desenvolvimento Social foi garantida.

“O pessoal está se virando remendando redes de pescadores de Rio Grande, fazendo, na verdade, um milagre”, comenta. Alguns conseguem fazer bicos de serviços gerais, mas nem todos, porque não podem assinar carteira de trabalho. Os que arriscam sair para pescar tainha ou corvina se reúnem e vão em uma única embarcação, porque sai mais barato.

Atualmente buscar a água é ter prejuízo
Segundo relata o pescador Michel Donini de Freitas, 34, não vale a pena ir à Lagoa, porque o que tem de peixe não compensa. “Até março dizem que vai ser esse tal de El Niño em cima de nós. Este ano não vamos ter camarão de novo e também não tem tainha. Entrou só até a Torotama, onde salgou. É crise mesmo. A coisa está muito feia”, fala, desanimado.

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Freitas conta que uma única vez nos últimos dias conseguiu, junto com um grupo de pescadores em dois botes, capturar 200 quilos de tainha e corvina. Depois não mais. Parece muito o que pescaram, mas dividido entre todos praticamente não teve resultado financeiro. Sidnei Jardim da Silva, 56, usou os últimos dias que antecederam a chuva para pintar seu barco. “O negócio é ajeitar a embarcação”, destaca.

Como Freitas, ele também não tem mais esperança. Além de não ter quase tainha e corvina e existir a perspectiva de mais uma safra de camarão frustrada, o preço de mercado não favorece o pescador, que vende o quilo das espécies a R$ 1,00, enquanto o atravessador repassa a R$ 10,00. “Mas nem isso está dando. A tainha que tem é miúda”, frisa.

Peixarias estão paradas
Na Colônia Z-3 as peixarias estão localizadas quase todas uma ao lado da outra. Quem passa pelo local vê que estão paradas. “Muito fraco”, fala Osvaldina Roldão, proprietária de uma delas, sobre o movimento. Ela também não acredita mais na reversão do quadro atual e acredita que o procedimento terá de ser o mesmo do ano passado para conseguir se manter no mercado: comprar camarão criado em cativeiro, que vem de Santa Catarina.

Base das vendas e dos produtos que comercializa, o camarão congelado é necessário, por isso busca em outro estado quando a safra em Pelotas é frustrada. Ela tem alguma coisa de tainha e corvina, mas concorda com os pescadores quando dizem que é pouca quantidade a aparecer na Lagoa dos Patos. “Com a Lagoa cheia desse jeito não dá”, acrescenta Osvaldina.

Entenda o que acontece com a lagoa
Segundo o professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Luís Felipe Dumont, o camarão-rosa F. paulensis tem ciclo de vida extremamente complexo e possui duas fases distintas, embora dependentes. A primeira acontece no ambiente marinho, na plataforma continental em frente à Santa Catarina, em profundidades entre 40 e 80 metros. Neste local ocorre uma agregação dos adultos (estoque desovante) e é neste ambiente que ocorre a reprodução da espécie. 

A partir da liberação dos ovos, que acontece com maior intensidade durante a primavera e o início do verão, inicia uma migração das larvas em direção ao Sul, impulsionada pelas correntes costeiras que as transportam para as regiões próximas aos estuários do Rio Grande do Sul, principalmente a Lagoa dos Patos. Estas larvas sofrem metamorfose ao longo do trajeto e a viagem entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul pode levar algo em torno de 30 a 60 dias, dependendo da temperatura e da intensidade das correntes.

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Elas são então transportadas para a região bem próxima à praia, conhecida como zona de arrebentação, onde aguardam uma oportunidade para penetrar nos estuários e iniciar a fase de berçário. Como são muito pequenas (dois a três milímetros) não possuem capacidade de nadar ativamente, dependendo então da entrada de água marinha para o interior do estuário. Caso não haja entrada de água salgada no estuário, as larvas irão morrer rapidamente, pois não encontrarão as condições adequadas de alimento e proteção para sobreviver.

Sobre o estuário da Lagoa dos Patos, um dos principais fatores que regulam a entrada de água salgada é a quantidade de chuvas na bacia de drenagem. Como a Barra de Rio Grande faz a comunicação entre o estuário e o mar, todo o deságue continental, oriundo das chuvas, escoa (vazão dos rios Jacuí, Taquari e Camaquã) por aqui e funciona como uma barreira física importante para a entrada das larvas de camarão-rosa, que não conseguem nadar contra uma corrente tão intensa. É principalmente em função deste fator que as safras de camarão podem ser maiores ou menores na região. 

O Laboratório de Crustáceos Decápodos (IO-Furg), em parceria com o professor Paulo Drews (C3-Furg), vem desenvolvendo um modelo de previsão da safra do camarão-rosa para a Lagoa. Este modelo é alimentado com dados históricos coletados pelo Projeto Ecológico de Longa Duração (Peld-CNPq) e atualmente apresenta uma taxa de acerto de 91%. Entre os principais fatores que o modelo indica para explicar o sucesso da safra está o fenômeno de larga escala El Niño Oscilação Sul (Enos).

Este fenômeno gera um aquecimento do Oceano Pacífico e intensifica as chuvas no Sul do Brasil, prejudicando a entrada das larvas no estuário. Centros de pesquisa que monitoram este fenômeno vêm classificando os anos de 2014-2015 como aqueles sob influência de um dos mais intensos Enos de que se tem notícia e essa deve ser a principal causa para o fracasso da safra no último ano e possivelmente no próximo.

Entretanto, quando se analisa a salinidade nos últimos cinco anos, pode-se verificar que existe uma diminuição importante destes valores, assim como uma abrupta diminuição da produção de camarão da Lagoa. Este fato deve ser melhor estudado, uma vez que a vazão dos rios durante este mesmo período não mostra aumentos significativos, o que pode indicar uma influência de outros fatores na entrada de larvas no estuário.


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