Opinião

Deve ser o rio. Só pode

Nesta segunda, o jornalista Pablo Rodrigues dedica a coluna ao espetáculo Náufragos urbanos, no Teatro Esperança

21 de Dezembro de 2015 - 09h13 Corrigir A + A -

Por: Pablo Rodrigues
pablo@diariopopular.com.br 

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Em Jaguarão, todos são devedores do rio. Por lá, quem não conhece o rio, desconhece o homem. O rio - a travessia - o homem. Em Jaguarão, a poesia de Martim César é hoje rosiana e reveladora canoa: “rio abaixo, rio a fora, rio a dentro”. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça: Náufragos urbanos - Cartas de marear, de Martim César, Ro Bjerk e Ricardo Fragoso. Poesia pura, em canções.

O leitor duvida, crê que exagero? Veja um breve trecho do samba Faca de ponta (Carta 2):

“Às vezes o mundo nos pega de ponta
Nos leva por conta sem nos consultar
E somos tão frágeis pra vencer a corrente
Que nos leva, inclemente, pros perigos do mar

Mas nem por isso, amigo, eu descreio do mundo
Pois já sei, lá no fundo, que viver é lutar
Para aqueles que querem que eu lamente os espinhos
Planto flor nos caminhos e convido a sonhar”

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No recital de apresentação de Náufragos urbanos, na última sexta-feira à noite, o público do Teatro Esperança viu-se remoçado. E - “A vida nos pede bem mais!” - despertou, como quem de repente se lembrasse que, postas à parte todas as míseras tristezas cotidianas, teve, tem e sempre terá vocação à alegria. E à beleza. Porque há, sim, o direito à alegria. E à beleza. Sei que não falo só por mim. Definitivamente, não falo só por mim. Falo por quem nem sei. Tanta gente à minha volta.

Tudo em Náufragos urbanos é talento e delicadeza. Em Casa vazia (Carta 4), canção digna de um Lupicínio Rodrigues, o diálogo entre a voz de Ro Bjerk e a flauta de Gil Soares encanta, abre portas e escancara janelas: leva o ouvinte, não sem doçura, à casa da melancolia. Herdeiro de Neruda, Martim César é capaz de falar - com igual engenho - sobre lutas e amores. Ouso dizer que, atualmente, na poesia do Rio Grande do Sul, não há quem dele se aproxime, tamanha versatilidade em compor.

As parcerias do álbum são todas acertadíssimas. O time de músicos foi escolhido a dedo. Além dos excelentes Ricardo Fragoso (que assina quase todas as músicas com Martim), Ro Bjerk e Gil Soares, também transitam pelas canções Paulo Timm, Aluisio Rockemback, Renato Popó, Fabrício Moura (Pardal), Jucá de Leon, Daniel Zanotelli, Lyber Bermudez, Eduardo Varella, Davi Mesquita Batuka, Jortan Lima e Hélio Mandeco.

Ainda na noite da última sexta, o público do Teatro Esperança pôde arrepiar-se, antes da apresentação de Náufragos urbanos, com a voz firme e doce de Laura Correa, cantora uruguaia de apenas 16 anos inacreditavelmente pronta para os palcos. Vê-la, em Jaguarão, misturada a Martim e a tantos outros, é reafirmar que, sim, Schlee esteve sempre certo: na fronteira, tudo é “uma terra só”.

Uma cidade vale pelo tanto que acrescentou de patrimônio cultural ao mundo. A Jaguarão, bastaria ter parido Aldyr Garcia Schlee e sua literatura. Há quem trocaria reinos por O dia em que o papa foi a Melo ou Contos gardelianos. Contudo, esta pequenina terra jaguarense - maravilhoso mundo - não se cansa de parir artistas, de espalhar encantamento e luta. Deve ser o rio. Só pode.
Gracias, Martim! Gracias, Jaguarão!

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