Análise

Sobre política e redes sociais

10 de Outubro de 2014 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Márcio Ezequiel - historiador e escritor - www.marcioezequiel.com.br

Primeiros dias logo após o primeiro turno das eleições e já estamos cansados. Cansados de pelear com teclas e saliva. Que atire a primeira palavra quem não se estafou esta semana. Amizades desfeitas nas redes sociais dia e noite. Narizes torcidos no trabalho, na vizinhança, no café, no boteco. Acontece que não estamos acostumados a debater. Tudo vira contenda pessoal. O cidadão brasileiro não sabe discutir suas preferências políticas, partidárias, religiosas, sexuais e desportivas.

Outro dia um leitor me escreveu dizendo que gostava dos meus textos, mas esse negócio de se meter em política não dava certo. Logo explanou porque discordava de minhas convicções, apresentando as suas. Trocamos algumas impressões por e-mail (nada fácil para ambos) e o respeito foi mantido. Nem todos, contudo, atêm-se às ideias. Partem logo para o ataque direto à pessoa. O cronista passa seguidamente por isso e deixe-me fazer um parêntese para explicar uma coisa. Isso que escrevo aqui não é jornalismo. Tampouco se pretende impessoal. É uma colaboração assinada em um espaço de opinião de um jornal. Se acharem panfletário, paciência. Sim, é minha apreciação. Você pode escrever a sua e publicar também neste ou em outro veículo que a aceite. Por outro lado, enquanto leitor, poderá concordar ou não. É um exercício de reflexão que deve multiplicar-se por meio de argumentos variados, firmando ou alterando convicções.

Voltando ao ponto desta análise, o mesmo ocorre nas redes sociais. As pessoas parecem não saber ouvir (ou ler) o outro, sem armar punhos imediatamente no ringue para atacar seus interlocutores, em vez de promover o embate exclusivo das ideias.

Neste segundo turno esta será a tônica dos debates, não apenas entre os eleitores como entre os políticos. E as consciências vão à lona por exaustão. Factóides e acusações aparecerão a torto e a direito para desqualificar oponentes, quando o que deveriam ser revisados com atenção são os projetos de governo. Com a saída da Marina, voltou-se à polarização, com um radicalismo não forçosamente apaixonado, estando mais para destemperado. Na disputa pela presidência, revive-se a guerra fria. De um lado, antipetistas e tucanos; de outro, petistas e petistas. Quando ocorre assim, o debate fica empobrecido, justamente porque nos falta experiência neste campo. Caberia ao próprio Estado talvez fomentar o pensamento político (lato senso) nas escolas, fóruns participativos, agremiações e comunidades. O universo em desencanto com a política e com os partidos só colaboram com a redundante despolitização, que gera mais descalabros administrativos e corrupção e, por conseguinte, maior insatisfação popular. Vide o esvaziamento das propostas advindas das manifestações de rua de 2013. Como muitos se disseram apartidários, tão logo voltaram às suas casas, não acharam mais um fórum coeso em que pudessem se organizar para uma cobrança continuada e persistente de suas reivindicações (supostamente) cidadãs ao governo. As redes sociais, por enquanto, parecem não serem instrumentos assaz eficientes para o aprimoramento do pensamento político, justamente por essa falta de prática que temos em tolerar as ideias do outro. Por isso talvez ainda ganhe maior disseminação a intolerância e o pensamento retrógrado, tão mais fácil de ser assimilado e que não aceita contraponto baseado na racionalidade e coerência.


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