Reagir é preciso
Armação da imprensa. Distorção da
mídia. Patrulhamento de jornalista. Quantas vezes, caro
leitor, você registrou essas reações nas páginas
dos jornais? Inúmeras, estou certo. Elas estão contidas,
freqüentemente, em declarações de políticos
apanhados com a boca na botija, no constrangimento de homens públicos
obsessivamente preocupados com a própria imagem e no destempero
dos autoritários do mais variado colorido. Todos, independentemente
da contundência de suas impressões digitais, negam
tudo. Procuram, invariavelmente, um bode expiatório para
justificar seus delitos. A culpa é da imprensa! A acusação,
carregada de cinismo, é uma manifestação
explícita de desprezo pela verdade. Vejamos dois episódios
recentes. Ambos emblemáticos.
Um dia depois de enfrentar o constrangimento de ouvir em plenário
o apelo de pelo menos 14 senadores para que se afastasse da presidência
do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) decidiu atacar a imprensa,
acusando setores da mídia de quererem derrubá-lo:
“O que está acontecendo é uma covardia. Setores
da mídia tentaram derrubar o presidente da República”
(referia-se Calheiros aos escândalos que, recorrentemente,
bateram às portas do Palácio do Planalto), “não
conseguiram, perderam no primeiro turno e no segundo turno e agora
querem fazer com o presidente do Senado uma espécie de
terceiro turno”. E, num assombroso exercício de cinismo,
completou: “Eu não sei do que me acusam. O Brasil
não sabe o que me acusa. Essa crise é uma crise
artificial. O que há contra mim? Qual é a acusação
que me fazem?”
Que fez a imprensa para provocar tamanha “indignação”?
Cumpriu o seu dever. Fez o que qualquer repórter iniciante
está obrigado a fazer. Checou as supostas provas apresentadas
em defesa do presidente do Senado. E elas simplesmente não
paravam em pé.
Que fazer? Mentir? Sonegar a informação? Cumprimos,
todos, o nosso dever: informar. E nada mais. Os meios de comunicação
existem para incomodar. Felizmente. Um jornalismo cor-de-rosa
é socialmente irrelevante. A imprensa, gostem ou não
os políticos, tem o dever de desempenhar importante papel
na recuperação da ética na vida pública.
E o ex-senador Roriz? Reproduzo algumas pérolas contidas
em sua carta de renúncia ao mandato: “Somente me
pesa na consciência o mal que venho sofrendo, que tanto
me tortura e procura turvar uma vida pautada na dignidade pessoal,
no respeito ao semelhante, no resguardo da coisa pública,
no profundo sentimento cristão.” Após o preâmbulo
de uma declaração digna de um carmelita descalço,
o ex-senador aponta o culpado por seu percalço: “O
furor da imprensa, o açodamento de alguns, as conclusões
maliciosamente colocadas lamentavelmente ecoaram mais alto.”
A imprensa, mais uma vez, é apresentada como a grande vilã.
A reação do ex-senador não merece duas linhas
de comentário. Sua renúncia é, de fato, o
reconhecimento cabal de sua culpabilidade.
A sociedade assiste, atônita, às conseqüências
do pragmatismo aético que se instalou nas entranhas do
poder. A governabilidade, palavra tão usada pelo presidente
da República, se transformou no outro nome da indecência.
Loteia-se a Nação em nome da tal governabilidade.
Incompetência e ladroagem caminham de mãos dadas.
Resumo da ópera: não vamos bem. A sociedade está
refém de uma miragem provocada pelos bons ventos da economia
mundial e pelo furor marqueteiro do Governo. O povo está
anestesiado pela força de ações populistas
e não consegue ver a agressão que se oculta em cada
ato de corrupção. O drama da saúde pública,
as filas intermináveis e a injustiça, brutal e endêmica,
são resultado da pornográfica corrupção
que se oculta sob a névoa de um crescimento de fachada.
Mas, como acontece com os dependentes químicos, a depressão
é a conseqüência inevitável da euforia
artificial. Não se constrói um país sobre
um pântano. É impossível.
Ou recuperamos os valores éticos, indispensáveis
para o autêntico crescimento sustentado, ou assistiremos
indefesos ao suicídio da cidadania. Reagir é preciso!
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, professor
de Ética da Comunicação e representante da
Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra
no Brasil, é diretor da Di Franco – Consultoria em
Estratégia de Mídia Ltda. E-mail: difranco@ceu.org.br