Editorial:
A concessão do grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) ao Brasil, em um período de turbulência global, valoriza ainda mais a conquista inédita do País. O primeiro impacto direto do investment grade é o aumento do fluxo de capital estrangeiro para o Brasil. O Governo e as empresas terão acesso a melhores condições de crédito no exterior e os fundos de investimentos que só podem aplicar recursos em países com o rating seguro poderão chegar ao Brasil.
Com os recursos obtidos em condições mais favoráveis, as empresas poderão investir em infra-estrutura e modernização, produzindo mais. Além disso, maior oferta de produtos reduz a pressão sobre a inflação, que tem se elevado, sobretudo em alimentos, pela crescente demanda dos consumidores brasileiros. Entre os setores que se beneficiarão com a elevação do rating soberano do Brasil, estão as empresas que têm seus custos ligados a insumos importados.
Conquistas como essa, na área econômica, são, obviamente, importantes. Mas a política econômica é um meio e não um fim da administração pública. O primeiro, o principal objetivo, é a melhoria das condições de vida da população, sobretudo, no caso do Brasil, dos muitos milhões de pobres, até miseráveis, que o País tem. É ótimo que o investidor estrangeiro tenha, agora, maior segurança para aqui investir.
Mas é preciso, urgentemente, que o Governo também torne o Brasil um país mais seguro para sua população, que vive atemorizada com a crescente criminalidade; em Pelotas, por exemplo, aumenta o número de assaltos, praticados em pleno dia e até na zona central; recentemente, só num dia houve 15 assaltos. Um dos aspectos que a S&P considerou muito para classificar o Brasil foi a disposição para honrar o pagamento de dívida.
Essa foi uma prioridade quase absoluta do atual governo, que, para isso, tem obtido elevado superávit primário, mantendo altos juros e elevadíssima carga tributária e, por outro lado, contendo gastos até com serviços essenciais, como segurança, saúde e educação. As pesquisas de opinião pública mostram que a insegurança é a principal preocupação do brasileiro.
Um país com a classificação dada pela S&P não precisa, pela lógica, manter taxas de juros reais muito mais altas que as do mercado internacional. Já é tempo de o setor financeiro acreditar mais no Brasil, reduzindo suas taxas de risco e aplicando mais no setor produtivo seus fabulosos lucros. A própria agência S&P cita algumas fragilidades que ainda persistem na economia brasileira. A dívida líquida geral do Governo, por exemplo, ficou em 47% do PIB, no fim de 2007.
Essa dívida, externa e interna juntas, ainda é alta, mas seu perfil melhorou. A S&P considera que há necessidade de reduzir o nível de gastos do atual governo, para fortalecer a posição fiscal e facilitar queda maior na taxa de juros, com implicações positivas para o investimento e crescimento.
Mas, além da simples redução dos gastos, é preciso adotar uma gestão mais eficaz e socialmente justa da despesa pública. A atual política governamental, em todos os níveis, tem uma tendência inversa; a matriz salarial do serviço público, com altíssimos salários para poucos (R$ 22,1 mil no Estado, por exemplo) e muito baixos para muitos, contribui bastante para tornar o Brasil o país com maior desigualdade na distribuição de renda do mundo.
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